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15/09/2006 00:02
O PRIMEIRO AMOR
Estava na oitava série, estudando no horário das 19:00h às 23:00h.
Mais ou menos um mês depois do início das aulas, uma menina foi transferida de uma outra escola para a nossa, passando a fazer parte da nossa turma: ela.
Ela. Adriana F.
O rosto era lindo. Lembra até o de uma das estagiárias que hoje trabalha comigo. Baixinha, pele branca, cabelos com aquele aplique de luzes (que davam aquele efeito de cabelos loiros), levemente cacheados, até a altura do ombro. Era uma loirinha, resumidamente falando.
Bunda não tinha. Definitivamente, não tinha. Mas o que isso importava? Já estava cegado pela paixão. Para mim ela era a menina mais bonita da escola. Quem era Sandra Sayuri perto dela?
Mas minha timidez estava sempre ao meu lado para atrapalhar tudo. Vocês não fazem idéia do quanto eu era tímido. Estava com quatorze anos e ainda não tinha beijado uma menina.
Não me lembro como começamos a conversar. Pra falar a verdade, eu, do fundo da minha inferioridade e timidez perante ela, não entendia como uma menina como ela poderia sequer imaginar que eu existisse.
Passamos a fazer trabalhos da escola juntos.
Um adendo: meu, é incrível como muitas vezes as pessoas fazem as coisas sem nunca prestar atenção ao que estão fazendo. E se não aparecer ninguém pra dar um toque, são capazes de ficar cometendo o mesmo erro pra sempre. Falo dos trabalhos escolares. O professor passa um trabalho que faz parte da nota final, pá e tal. E o aluno, cabeça de bagre, possuído não sei por que espírito, escreve na capa do trabalho: Trabalho de Matemática, Trabalho de Ciências, Trabalho de Geografia, e por aí vai. Dããããããããh... Cara, isso me dava um ódio, vocês não fazem idéia. E o pior é que até na faculdade conheci seres com a capacidade de entregar um trabalho dessa forma. Cara, como pode...
Voltando ao assunto...
Passamos a fazer trabalhos da escola juntos. Juro pra vocês que nunca escrevi a palavra trabalho na capa dos meus trabalhos escolares. Por este pecado mortal não hei de ser julgado no dia do Juízo Final.
A nossa amizade foi crescendo. O pior é que tenho de admitir, infelizmente ela era do tipo burrinha: falava besteira de montão, e dava aquela risadinha hi hi hi, parecida com a da Chiquinha do Chaves.
Outro adendo: o humor na televisão brasileira pode ser dividido em A.C. (antes do Chaves) e D.C. (depois do Chaves). Já disse isso há muito tempo aqui, mas nunca é demais repetir.
Mas, como disse, estava cegado pela paixão. Tarde demais. Amava Adriana, com risadinha de Chiquinha, sem bunda, e tudo mais.
Pra história ficar ainda melhor, só faltava dizer que ela tinha um namorado. Pois é: tinha. Mas eu, é óbvio, alimentava a esperança de que ela viesse a se apaixonar por mim. Esperança vã, é claro. Pobre diabo era eu.
Os colegas da turma, óbvio, perceberam que eu estava arrastando um bonde por ela. Dentre eles, Ed, jogador de vôlei do time da escola, bem alto, moreno, bonito, popular e que fazia aquele sucesso com a mulherada. Pensava comigo: só falta esse cara dar em cima da minha amada.... Isso pra mim seria a morte, porque eu sabia que ele era realmente tudo o que e não era. E eu não teria a mínima chance, perderia de goleada pra ele. Para a minha surpresa, ele não se aproximou dela. Ainda bem, pensava eu, aliviado. Porém, mal sabia eu que o pior estava por vir.
Comecei a freqüentar a casa dela, para fazer os trabalhos. A mãe dela era um doce, me tratava super bem. Sabe, estava realmente gostando do ritmo em que as coisas estavam andando: a amizade, os trabalhos, conhecendo a família. Tudo indo às mil maravilhas.
Na sala de aula, porém, algo começou a me incomodar: o ciúme. Ela era simpática e bonita, e isso atrai a atenção de outros caras. Ah, véio, eu me corroia de ciúme... Eu ficava muito puto com tudo aquilo... Hoje, relembrando as cenas, sei que nunca teve nada a ver, mas, à época, era um ciúme dos piores que poderia existir. E eu lá, agüentando calado. Ninguém nunca percebeu. Nunca deixo ninguém perceber o quanto sofri, ou sofro por dentro. Aliás, nunca deixo transparecer quando estou sofrendo. No meu ambiente de trabalho, mais ainda. Os funcionários não enxergariam você como uma pessoa sensível, e sim como um fraco. E para as mulheres, principalmente homem sensível = viado. E ponto final.
É claro que Adriana percebeu minha paixão por ela. Não tinha como ela não perceber.
Um dia, na casa dela, eu sentado ao lado dela, ela começou a me encarar. Como a minha pele é morena, não havia como ficar vermelha, mas estava realmente me sentindo intimidado por ela. Eu olhava para os livros e as folhas de papel, e ela me encarando, com aquele sorriso enigmático de Mona Lisa. Achei que aquele momento não iria terminar nunca. E se ela viesse me beijar, o que eu faria? E se ela me perguntasse algo, do tipo se eu gostava dela? O que eu responderia? Ela estava esperando que eu dissesse ou fizesse algo, mas minha timidez, como disse, estava lá para azarar tudo.
Nossa amizade estava legal. Amizade o caralho! Só se fosse da parte dela... Porque da minha parte era amor... Ficava ansioso para vê-la entrar na sala de aula e sentar-se ao meu lado. Olha, considero-me uma pessoa forte. Já passei cada perrengue por causa disso...
E Ed, o popular, zombando de mim. Ele adorava me zoar, me chamava de baianinho e de outras coisas. E zombava do meu amor por Adriana. Filho da puta. Desejei tanto que um carro passasse por cima das pernas dele para que ele não pudesse mais saltar para dar as cortadas no vôlei. E que, uma vez paraplégico, viesse a se tornar mais humilde.
Há males que vêm pra fuder com tudo mesmo.
Já era inverno.
Não me lembro como começou aquela discussão. Ed e Adriana estavam discutindo. Não que eles não pudessem discutir, é claro, mas o que me causava estranheza era o fato de até então eles pouco terem conversado.
Não estava entendendo nada daquilo. De repente, Ed se levanta e grita para Adriana que aquilo que aconteceu já era, por que você veio falar disso aqui?, aconteceu, mas já era, tá entendendo?. Ele falava tudo isso, e ela lá calada, como se estivesse tomando bronca do pai, sem dar um pio. Humilhante.
O que aconteceu?, eu me perguntava.
Vieram me dizer. Quando ela estudava na outra escola, eles, Adriana e Ed, tinham ficado, dado uns beijos. Isso mesmo. Ele. Ela.
E ela tinha que ter beijado justamente ele. Caralho, véio, mas que merda. Que merda. Isso era o cúmulo do lugar-comum do dramalhão. Como a história insiste em se repetir.
A minha outrora imaculada Adriana passou a ser uma comum, bonitinha e ordinária, a diaba. Ah, então você beijou ele, não é mesmo? Agora enfia o dedo no cu e rasga, que eu tô cagando e andando, morô?. Passei a reparar a bunda que ela não tinha, e sua risada de Chiquinha passou a me irritar. Por dentro eu estava de dar dó, mal mesmo, sabe?
De forma um pouco inconsciente comecei a me afastar dela, a tratá-la como uma colega comum, como as outras. Passei até a fazer parte de outro grupo de trabalho. Aquela história toda foi demais pra mim.
E eu, aos quatorze anos, não havia ainda conseguido beijar uma menina. Hoje pode ser até engraçado falar sobre isso, mas na época era um drama que parecia não ter fim.
Um dia desses, visitando a página de uma amiga minha no Orkut, encontrei a página de Ed. Deixei um scrap perguntando se ele era ele mesmo, pá e tal, como ele estava, se ele ainda se lembrava de mim. Disse a ele que eu estudava na mesma turma que ele no ginásio, etc, etc, etc. Recebi dele a seguinte resposta:
Sim, sou eu mesmo. Mas desculpe-me, de você eu não estou me recordando.
Próximo texto: ... A GENTE NUNCA ESQUECE
enviada por Vinicius
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