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10/09/2006 18:46

AMOR DE INFÂNCIA

Estava na segunda série do primeiro grau, com oito anos. Naquela época, os melhores alunos ficavam nas salas que tinham as primeiras letras do alfabeto. Sendo assim, os melhores alunos da segunda série eram os alunos da segunda série “A”, seguidos pelos alunos da segunda série “B”, e assim por diante. Na primeira série, não havia como ter essa distinção, uma vez que todos eram iguais, não tinham exibido algum rendimento anterior que os classificasse de alguma forma. Entrei na escola na primeira série “F”. Na segunda série, fui “promovido” para a segunda série “B”. Era injusto, claro, mas as coisas eram simplesmente assim naquela época.
Promovida para a segunda série “B”, assim como eu, foi Sandra Sayuri. Japonesinha, pele morena, cabelo preto ao estilo “Chanel Balãozinho” (igual ao da Ana Paula Padrão, âncora do Jornal da Globo). Sua beleza reluzia. Era impossível ficar indiferente frente a tanta beleza. Ela vestia aquele uniforme impecavelmente. A camisa passadinha, a saia plissada, um capricho. Até parecia que ela nunca se sentava, corria ou brincava, pois a roupa dela estava sempre alinhadíssima, sempre limpinha, sempre impecável. Ela era de uma educação, de fala articulada, e um jeito de mexer a cabeça e dar umas piscadinhas que só ela mesmo.
Tive a sorte de me sentar numa carteira na frente da dela. Me sentia o máximo (como eu era tontinho...). É claro que ela nem sabia que eu existia. Ela nem era esnobe, o que me fazia admirá-la ainda mais.
Eu era corintiano. No ano anterior, 1977, o Corinthians tinha saído da “fila de 23 anos” sem um título, sendo campeão paulista em cima da Ponte Preta, 1 a 0, gol de Basílio.
Numa conversa que tivemos eu, Sandra Sayuri, Patrícia e Frank, perguntamos entre nós para que time cada um torcia. “Palmeiras”, disse Sandra. “E o teu, Vinícius?”, me perguntaram. Respondi sem hesitar:
PALMEIRAS.
É óbvio.
Queria que Sandra me visse, ter algo em comum com ela, queria ter sua consideração e admiração, queria fazer parte da turma dela. Não consegui, evidentemente.
Mas não “desmudei” de time. Sou palmeirense graças à Sandra Sayuri.
Essa é a melhor lembrança que guardo dela, a da japonesinha burguesinha que jamais, nem nessa vida, nem no passado, nem no futuro, nunca, mas nunca mesmo, olharia pra mim, mas que me resgatou das trevas e me trouxe para a luz: transformou um corintiano em palmeirense.
Obrigado, Sandra. Você foi um anjo verde-e-branco em minha vida.
Jamais te esquecerei.

Próximo texto: O PRIMEIRO AMOR

enviada por Vinicius






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