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01/08/2006 06:11
PERDEU-SE UMA OPORTUNIDADE
Não podia deixar de falar sobre a morte de Liana Friedenbach, 16, e Felipe Silva Caffé, 19.
Fico imaginando o sofrimento dos pais, principalmente o do pai de Liana, que acompanhou o caso até a condenação dos criminosos. Cara, como sofreu esse pai...
Mas o que eu tenho a dizer sobre este caso é que, mais uma vez, ocorre o caso se ficar falando mal dos culpados de sempre, a mesma ladainha mais uma vez, e todo mundo se indignando, etc, etc. E perdeu-se, mais uma vez, uma oportunidade de se educar, colocar alguma coisa na cabeça oca dos adolescentes.
Lembro-me bem que, mais ou menos uma semana depois do crime (novembro de 2003), o jornal Folha de S. Paulo fez uma pesquisa com adolescentes dos colégios tradicionais, caros, freqüentados por adolescentes do perfil de Liana. Dentre os colégios, estava aquele em que Liana estudava. Não me lembro das porcentagens, mas a maioria achava que, sobretudo, o que ocorreu foi que eles deram azar. Nem irresponsáveis, nem burros, não. Bom, eles podem até ter sido todas essas coisas junto, mas o que eles deram mesmo foi um puta de um azar.
Já fui adolescente cabeça oca.
Defendo a teoria de que adolescentes não vão para o inferno. Para ir para o inferno, é preciso ter alma, coisa que eles dadas as coisas que são capazes de fazer e de não fazer não têm.
O que faz duas pessoas inteligentes irem passar uns dias em um sítio abandonado daqueles, definitivamente na casa do caralho? Te digo: o fato de serem adolescentes. Admito que, no lugar deles, poderia até ter feito o mesmo.
Quando se é adolescente, ocorre aquele momento em que ficamos órfãos, sós. Explico: quando nossos pais parecem não acompanhar nosso raciocínio, entender nossas ansiedades, necessidades e dificuldades e, ao mesmo tempo, ainda não temos amigos íntimos, com quem compartilharmos essas mesmas ansiedades, necessidades e dificuldades; e muitas vezes, quando achamos esse amigo, dada sua falta de experiência, mesmo assim ele não é capaz de ajudar em momentos críticos.
Para um adolescente não existe plano B. E não é otimismo não: é convicção pura. Como aquilo que ele planeja não tem como dar errado, pra que perder tempo com plano B?
Lembro-me de que pedia à minha mãe alguma coisa, e ela me vinha com um monte de perguntas. Como? Quando você volta? E com que dinheiro? E com quem? Quem são essas pessoas? Cara, pra que tanta pergunta?. Na minha mente, tudo não passava de um lance perfeito, e minha mãe só ficava urubuzando a parada. E o que eu fazia pra evitar tanto falatório?
E, fala a verdade, quantas coisas a gente já aprontou quando éramos adolescentes, que hoje, quando nos lembramos, pensamos: puta merda, onde eu tava com a cabeça pra fazer uma coisa daquelas? Tava possuído só podia ser...
Já estive em situações em que podia ter feito uma puta de uma cagada, e não tinha ninguém, amigo ou inimigo, pra me ajudar a decidir. Era eu e eu mesmo. Nessas horas, a lembrança de algo bom ou ruim, Deus, uma frase bem dita ou mal dita, o humor, o exemplo dos pais, podem fazer a diferença por decidir-se entre fazer ou não a bobagem, a cagada, aquilo que pode nos azarar pra sempre, é ou não é?
Conheço o caso de uma menina que foi à uma festa e começou a beber todas. Acordou às 6 da manhã do dia seguinte, na cama de um rapaz desconhecido, com o celular tocando. Era sua mãe, aos prantos, desesperada. Começou a se lembrar, em flashes, como fora a noite, quando conheceu o rapaz... Fez sexo sem proteção. Mas não ficou grávida, e não pegou nenhuma doença.
Um colega meu, acompanhado dos amigos, foi a uma festa, no carro de um deles. Lá, beberam todas. Na volta, todo mundo pra lá de bêbado, o motorista o mais bêbado de todos perdeu o controle do carro. Rodopiaram, saíram da estrada, continuaram a rodopiar no meio do mato, e o carro só foi parar quando bateram numa árvore. O carro deu perda total, mas só houve ferimentos leves. Após perceber que ninguém estava gravemente ferido, esse colega meu ainda me disse que o copo de vinho que estava em sua mão não havia derramado quase nada. Disse isso rindo. Na época, ele tinha 19 anos, média de idade de seus colegas naquele carro.
Conheço gente que foi para noites de drogas (em que alugam casas, ou vão para a casa de alguém para experimentar os "baratos" a "maresia") e voltou. Entenda-se por voltou o fato de a pessoa não ter se tornado viciada em nenhuma das drogas lá experimentadas.
Há muitos outros casos semelhantes a esses. Por outro lado, há histórias em que o início é semelhante, as o final é completamente diferente, como no caso de Liana e Felipe.
E os amigos? Ah, amigo é pra essas coisas, para o que der e vier, não é mesmo? Pois é, pra tudo mesmo, até pra fazer bobagem. As amigas de Liana não se deram conta da gravidade da situação ao serem perguntadas a respeito. E esse gesto de amizade, fraternidade, atrasou a busca pela polícia, prolongando o sofrimento de Liana, e dando mais tempo aos bandidos. Só mais tarde, ao perceberem o que realmente estava acontecendo, resolveram contar. Tarde demais, é claro.
Teve gente que disse que o Champinha e sua turma eram do mal, e que Liana e Felipe eram do bem. Meu, como as pessoas adoram esses pensamentos simplistas.
Esse tal de Champinha e sua turma eram uns animais, é óbvio. E, animais que são, estavam lá, na deles, em seu habitat. Se analisarmos friamente, a culpa (assim, entre aspas) pelo crime deve ser creditada às próprias vítimas, Liana e Felipe. Estes, que eram inteligentes e instruídos, nada tinham que fazer em um lugar abandonado, lugar de ninguém.
O assassino estava lá, pronto para assassinar. E ele cumpriu a parte dele. O casalzinho é que não deveria ter ido lá, pra ser a presa.
Sabe quando você mergulha num rio, sem sequer imaginar que lá tem piranha? Pois é... Você cumpriu o papel de desavisado. E as piranhas, vão cumprir o delas, seguindo a própria natureza.
Ah..., você me diz, mas não justifica alguém cometer um crime daqueles...
Justificar o quê? Pra começar, o tal Champinha, o líder, era meio retardado, e criminoso. E sabe-se bem que um criminoso, um homicida, tem uma lógica própria, exclusiva. Certo e errado, morrer ou viver para esse tipo de pessoa não passam de dois lados de uma mesma moeda.
A mídia em geral só ficou falando em diminuir a maioridade penal, ou a adoção da pena de morte para crimes hediondos, demomizando (como se fosse preciso) o assassino e endeusando o casal.
É fácil falar em endurecer a maioridade em momentos desses. Ou em pena de morte.
Sou contra a pena de morte. Apesar de não ser contra a priori, por não considerá-la moralmente incorreta, acho-a impossível de ser posta em prática, dadas as falhas no sistema judiciário. Os condenados seriam os mesmos PPP (pretos, pobres e prostitutas). Duvido, mas eu duvido MESMO que Pimenta Neves ou Suzane Von Richtofen viessem parar numa cadeira elétrica. Agora, com relação aos irmãos Cravinhos, tenho certeza de que iriam, mas certeza MESMO.
Mas, ao invés de declarar ódio ao assassino e endeusar o casal morto, o que a mídia deveria ter frisado é a inconseqüência e a irresponsabilidade dos adolescentes, o como isso pode ser perigoso e devastador na vida deles e das pessoas que os rodeiam. Sim, o assassino assassinou. Mas que o casal foi irresponsável, isso foi. Deram uma puta mancada. E muitas lições poderiam ter sido tiradas deste pavoroso episódio.
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Esses últimos dois textos trataram de crimes atuais de grande repercussão, e achei que não poderia deixar de refletir sobre eles com vocês, leitores.
Abraço do Vinícius
enviada por Vinicius
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