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14/07/2006 19:07
VOCÊ É ÉTICO?
Suponha que você seja um candidato à Presidência da República, nas seguintes condições:
1. Não há reeleição, e o mandato é de 4 anos;
2. Você foi para o segundo turno, e as atuais pesquisas mostram um equilíbrio entre você e o outro candidato, um empate técnico, ou seja, nada está garantido;
3. As campanhas, tanto a sua como a do seu rival, estão ocorrendo sob rígido controle, sem possibilidade de uso de caixa 2 ou coisa que o valha, portanto;
4. O país passa por diversos problemas, mas um, em especial, está sendo um problema crônico para o país: o desemprego. Estudos (FGV, Dieese, etc) mostram que, para equalizar este problema, seria necessária a criação de pelo menos 10 milhões de empregos.
5. Os mesmos estudos mostram que, à taxa de crescimento atual, só será possível a criação desses 10 milhões de empregos em, pelo menos, 10 anos, ou seja, a cada ano estima-se a criação de 1 milhão de empregos.
6. Você, bom entendedor/entendedora dos problemas do país que é, tem plena convicção de que a sua proposta de governo é melhor do que a do candidato/candidata rival, em todos os aspectos: o problema do desemprego, segurança, infra-estrutura, educação, reforma agrária, enfim, você entende que sua proposta é a melhor para o país.
Em toda cidade visitada, ao conversar com os eleitores (corpo-a-corpo), você nota a preocupação e perguntas freqüentes sobre como será resolvido o problema do desemprego, quantos empregos serão criados e como isso será feito, etc. Você, assim como o seu rival, sempre explica como isso será feito, mas evita falar em números de vagas a serem criadas. Ou seja, você e seu rival, sabendo da realidade, são evasivos, nunca dão uma resposta direta. E você sabe que explicar para o povão utilizando conceitos como taxa de crescimento, PIB e superávit primário é algo que, simplesmente, não dá.
Ocorre que, a dez dias da votação, seu rival surpreende: promete os 10 milhões de empregos e explica como isso vai acontecer em quatro anos. A proposta fantasiosa, é claro também é motivo de chacota por toda a mídia, especializada ou não, taxando-a de conto de fadas, e por aí vai.
A estratégia, porém, dá resultado: nas pesquisas (Ibope, Datafolha), seu rival deu uma boa subida nas pesquisas. Em outras palavras, seu rival foi esperto, velhaco, buscando tirar vantagem da ignorância do povão, mostrando números, dados que o povão - que odeia números - não tem condições de conferir, mas que soaram como algo otimista, que traz esperança.
Embora com chances, sua candidatura fica seriamente ameaçada.
O que fazer?
Seu coordenador de campanha, melhor amigo, confidente, parceiraço, brother mesmo, admite que para reverter a situação seria necessário fazer o mesmo: mentir prometendo o mesmo, sob o risco de também ser incensado pela mídia, porém agradando os eleitores, falando o que eles querem ouvir.
A outra opção seria falar a verdade, e tentar explicar aos eleitores que o que o outro candidato propõe é impossível de se realizar na prática, que não passa de enganação. Porém, dado ao curto espaço de tempo, torna-se quase impossível fazê-lo sem perder a eleição.
Você se convence de que existem, pelo menos até o momento, duas alternativas: mentir e ganhar a eleição ou falar a verdade e perder a eleição. Deve haver um outro jeito, uma outra estratégia para ganhar esta eleição, mas é difícil imaginar o que seria, você pensa.
O que você faria?
1. MENTIRIA, E PRATICAMENTE GARANTIRIA A VITÓRIA, lembrando que o que está em jogo não é a sua vitória pessoal, e sim, os destinos de um país. Seria uma mentira, o que faria com que seus índices de popularidade caíssem à medida que o povão, mais uma vez, viesse a cair na real. Você iria para o sacrifício: sua popularidade cairia, porém acredita você o país estaria em melhores mãos, com um programa de governo muito melhor que o do outro candidato. Ou seja: mesmo com a sua imagem ruim, o povo sairia ganhando.
2. FALARIA A VERDADE, COM POUCA PROBABILIDADE DE VITÓRIA. Nunca antes ninguém tinha feito isso, um ato de coragem seu. Preferiram o caminho mais fácil, a primeira opção acima. Você tentaria, a todo custo, convencer os eleitores sobre a peça de ficção que é a proposta do outro candidato com relação ao desemprego. Sua imagem ficaria intacta, porém o povo quer uma resposta mais otimista e que traga mais esperança.
3. NENHUMA DAS ANTERIORES. TEM que haver um outro jeito. Estou sendo induzido a tomar o caminho mais fácil, estão me testando, tentando descobrir do que eu sou feito. E tenho de agir rápido, você pensa. Que jeito seria esse?
A decisão e sua.
Comente.
enviada por Vinicius
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