Cidadão Mediano

F A Ç A    B O A S    P E R G U N T A S

Tudo depende       Nada é sempre       Tudo é às vezes

 

06/07/2006 11:28

DILEMA

Teve um episódio da série C.S.I. (Crime Scene Investigators), do canal Sony, que contou, dentre muitas ótimas histórias, uma que realmente me chamou a atenção. Foi mais ou menos o seguinte:

Já era noite. Uma menina andava tranqüilamente de patinete perto de sua casa. Ao atravessar a rua, é surpreendida pela chegada de um carro, que a atropela, lançado-a a uns 20 metros do local do impacto. O motorista, ao invés de socorrê-la, foge do local sem prestar-lhe socorro. Mais tarde, a menina é encontrada morta.
Entram em cena os peritos. Um homem e uma mulher.
Ninguém testemunhou o acidente. Não havia, até o momento, como identificar o veículo que atropelara a menina. Verificaram, porém, que a placa do carro marcou o corpo da menina. Enfim, conseguiram identificar potenciais veículos que poderiam estar circulando no local e hora do acidente.
Chegam na casa de um senhor de mais ou menos uns sessenta anos, e pedem-lhe para dar uma olhada no carro, que está na garagem. Ao verem o carro, a placa do carro está amassada: aquele era o veículo que atropelara a menina, um carro tipo Jeep. O velho só abaixa a cabeça, não nega nada. Vai preso.
Ao fazerem a perícia no carro, observam que o banco do motorista está muito pra frente, incompatível com a altura do velho, uns 1,80m. Ao ligarem o rádio, um rap do Mos Def toca: não era o velho que dirigia o carro no momento do acidente. O velho, que tem um sobrinho adolescente, precisa ser interrogado de novo. O sobrinho também é chamado.

O episódio mostra, tanto o velho como seu sobrinho, como pessoas indubitavelmente “do bem”, de boa índole. O velho tinha a ficha limpa, nem multa de trânsito tinha, demonstrava arrependimento. Cuidava do sobrinho, no segundo ano da faculdade, trabalhador, honesto, pá e tal. É claro que, na vida real, não se pode saber assim, de bater o olho, se a pessoa é ou não é boa, mas o episódio se esforça em frisar que se tratavam de duas pessoas de bem, e que aquilo que acontecera veio para arrasar a vida de retidão que eles levavam até então.

No segundo interrogatório, o sobrinho pede ao tio para contar como foi. “Deixa que eu conto”, interrompe o velho, que admite não estar dirigindo o veículo no momento do acidente por ter problemas em enxergar à noite, passando a direção a seu sobrinho. Assume a responsabilidade pelo ocorrido, por ter deixado a direção do carro nas mãos de alguém sem habilitação para dirigir. O velho também disse que fugira do local por puro medo, covardia, mas que estava ali para pagar o preço.
Os peritos sabiam que o velho estava tentando proteger o sobrinho, pois sabiam que só havia uma pessoa – e não duas – naquele carro, no momento do acidente.

Perita: Olha, o velho já está sofrendo demais. Vamos deixar pra lá...
Perito: Que é isso? Sabemos que foi o rapaz, temos que ir até o final e provar que foi ele, e não o velho, que atropelou a menina!
Perita: Vamos encarar a realidade: isso não vai trazer a menina de volta.
Perito: Não vai, mas e os pais dela, que querem simplesmente que seja feita a justiça?
Perita: Os pais já têm a justiça: alguém já está pagando pela morte da filha deles. Que diferença vai fazer pra eles quem seja?
Perito: Você sabe qual é o nosso dever: o de trazer à tona nada mais do que a verdade, nada mais que isso.

No terceiro interrogatório, o velho deixa seu sobrinho contar a verdade: estava ele voltando do trabalho, dirigindo o carro, quando o celular toca: era seu tio. Depois de uma conversa curta, abaixa-se para colocar o celular no console do carro. Quando olha pra frente, avista a menina, só que não a tempo de evitar o atropelamento. Com medo, volta pra casa, e conta tudo ao tio.

“Eu vou ficar bem, tio, pode deixar”, diz o rapaz, sendo algemado. Seu tio, por sua vez, implora aos peritos e policiais presentes para que o mantenham preso.

“Esse rapaz é um ótimo menino, tem um grande futuro, está na faculdade, tem boas notas, alguém de quem qualquer um se orgulharia. Eu já vivi a minha vida, e posso ficar aqui no lugar dele. Aquilo foi um acidente, eu sei que não dá pra voltar atrás, mas não se pode arruinar a vida de alguém por ter tirado a vida de outra por acidente. Por isso, deixem-me pagar a pena no lugar de meu sobrinho. A família da menina verá alguém pagando pela morte dela, e um rapaz não terá sua vida interrompida”.

A cena do velho se despedindo de seu sobrinho é muito triste.

Essa é uma das histórias que tem a ver com o lema deste blog:

FAÇA BOAS PERGUNTAS

O que a história propõe é uma reflexão, principalmente, sobre os dilemas que a busca da verdade, ética e justiça podem trazer.

E o dilema aqui é algo fortíssimo.
No caso acima, todos têm suas razões, muito bem fundamentadas.
O autor do episódio optou pela verdade (a posição do perito) para a conclusão do episódio: o rapaz foi preso.
Para a perita, porém, a opção seria por atender a vontade do velho, poupando seu sobrinho.
Para o sobrinho, também a opção seria a de contar a verdade, não deixando seu tio pagar por algo cuja culpa (sem-intenção) tenha sido dele.
Para o velho, a opção por poupar seu sobrinho se devia ao fato de este ser uma pessoa de bem que teria a vida arruinada devido a uma distração, distração essa causada por uma conversa ao celular.

E você?
O que faria no lugar de cada um deles?
Já esteve em uma situação dessas?

enviada por Vinicius






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