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03/06/2006 21:45
VICISSITUDES
Nos meus tempos de ginásio (sétima série), havia um colega que eu julgava ser meu amigo, meu melhor amigo. É claro que não fazia muita idéia do que essa palavra significava direito à época, mas enfim... Era amigo.
Ele era apessoado, vestia-se com roupas de marca, era articulado com as palavras, nada tímido, jogava vôlei e, é claro, fazia sucesso com as garotas.
E eu... Não era nada disso.
Cara, como eu era ingênuo. E ele, não era nada disso.
Estava na casa dele. A gente tinha acabado de fazer um daqueles trabalhos com cartolina, daqueles de colar figuras, pá e tal. A casa tinha um quintal grande, e ele tinha uma bicicleta muito legal (quem era eu pra ter uma bicicleta, coisa rara na época). Ficamos dando umas voltas pelo quintal com a bicicleta, enquanto ficávamos falando besteiras. De repente, ele disse:
Meu, tive uma idéia! Vamos ver quem dá a volta mais rápida no quintal?
Topei na hora.
Você vai primeiro. Vou cronometrar com o meu relógio aqui.
Lá fui eu. Saí no maior pau. Quando estava na metade da volta, eis que sinto o puxão e me vejo caído, com a cara no chão, sem entender nada. Viro-me para meu amigo, e lá está ele, mijando-se de dar risada: sem que eu visse, ele amarrara uma corda na parte de trás da bicicleta.
Levantei-me, rindo também. Continuei amigo dele por um bom tempo, até o fim do ginásio. Daí, cada um foi prum lado. A gente se vê raramente, nesses metrôs da vida.
Só vim parar pra pensar nesse episódio uns quinze anos depois, eu casado, filhos e tudo mais. Só então me atentei para a maldade do amigo.
Foi um sentimento retardado: tudo o que deveria ter sentido naquele dia, mas que não senti devido à minha ingenuidade, senti neste dia em que me lembrei do episódio.
Amigo... Amigo é o caralho!
Quando o vejo, não consigo deixar de me lembrar.
Somos homens agora, aquilo é coisa do passado.
Rancor? Chame do que quiser.
Pode ser efeito do quem bate esquece, mas quem apanha, nunca.
Talvez.
O fato é que eu talvez com a ajuda de Freud nunca o perdoei por isso.
***********
Conheço essa colega há uns vinte anos. Nunca fomos, assim, próximos, a ponto de nos tornarmos amigos, mas enfim, ótima colega. Ela é amiga de minha mulher, que a conhece há muito mais tempo. De tempos em tempos ela dá uma passada aqui em casa para conversar com minha mulher sobre trabalho. Ambas são professoras.
Há mais ou menos uns três anos, tinha acabado de tomar o ônibus, que estava vazio devido ao horário, perto das dez da manhã. Na parada seguinte, eis que entra essa colega que, à época, há muito tempo não vira devido ao trabalho, estudos, etc, etc.
E aí! Há quanto tempo, hein?, disse ela ao me avistar, logo da porta do ônibus. Sentava-me ao lado da janela, mais ou menos no meio do ônibus. Após ter passado pela catraca do cobrador, ela continuou falando comigo. Passou por mim e... Foi se sentar do outro lado do corredor, naqueles bancos altos, que ficam em cima da roda de trás do ônibus, aquele banco de onde se tem uma vista melhor, mais panorâmica, porém onde se sentem mais as chacoalhadas, quando o ônibus passa por uma lombada, por exemplo. E de lá continuou a falar comigo, até que eu, com cara de paisagem, fui aos poucos terminando a conversa. Afinal, era mais importante o banco alto do ônibus do que conversar comigo.
Que coisa... Ser preterido por um banco de ônibus.
Isso que é massagem no ego... Com um rolo compressor.
Isso foi bom para eu avaliar o meu potencial sem-gracístico, bem alto na época.
Pouca coisa mudou, é verdade...
enviada por Vinicius
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