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09/06/2006 05:25
AMIZADE? QUE HISTÓRIA É ESSA?
Há duas semanas, o noveleiro Tiago Santiago reuniu-se com o bispo Honorilton Gonçalves, superintendente da Rede Record. Eles trataram do destino de uma dupla de personagens do folhetim Prova de Amor, criado por Santiago. O autor, que há pouco bolou um recurso inédito no gênero ao conceber um capítulo interativo no qual os espectadores puderam votar sobre os rumos da trama, pretendia fazer uma nova consulta, dessa vez sobre a relação da assistente social Janice (Fernanda Nobre) com a aspirante a escritora Raquel (Maria Ribeiro). A audiência escolheria se a intimidade entre ambas terminaria por desembocar num romance lésbico, com direito a beijo. O bispo demoveu Santiago da idéia. "Havia sempre o risco de o público votar 'sim', o que seria impróprio para o horário", diz o autor. Nos bastidores, sabe-se que não se trata de mera questão de classificação etária. Nas bases da Igreja Universal do Reino de Deus, dona da emissora, há quem pressione contra a violência e as cenas sensuais dos folhetins da casa e beijo lésbico já seria demais. "Tudo bem: vou tratar a amizade delas apenas como um caso de amor espiritual. Mas voltarei ao tema gay em outra novela", diz Santiago.
(FONTE: Revista VEJA, Edição 1959. 07/06/2006)
Quero falar sobre como a mídia e certos autores, artistas, noveleiros, etc tratam questões sérias e complexas de forma simplista.
E sexualidade é, e sempre será, um tema complexo, assim como relacionamentos, infidelidade no casamento, educação dos filhos, e por aí vai. A grande maioria das perguntas acerca destes temas não é respondida simplesmente dizendo-se sim ou não. É o lance do cada caso, um caso, do é preciso que se saiba de mais detalhes para uma resposta mais adequada, ou do muita calma nessa hora, e por aí vai.
Mas a mídia, é claro, dizendo querer ajudar, fazer marketing social, adora querer simplificar as coisas para o povão.
O exemplo do romance lésbico acima ilustra bem o que eu quero dizer: uma das meninas tem uma mãe conservadora, que quer afastar as duas amigas, pá e tal. Com relação à outra menina, não sei bem ao certo se a mãe ou os pais dela, o que sei é que esta tem pais liberais e que dão apoio e têm mente aberta. Enfim, o que quero dizer é que só há para o telespectador uma única resposta: sim, elas devem se beijar e namorar. E por que o sim aqui é a única alternativa? Simples: o autor demoniza o personagem que defende o não (colocando como conservador, careta, etc) e santifica o personagem que defende o sim. É o que chamamos de maniqueísmo.
Teve uma outra novela, só que da Rede Globo, em que teve o mesmo tipo de romance. Nesse caso, o exemplo se repete: de um lado, o pai repressor, irredutível, que era contra o homossexualismo da filha. Do outro, a filha homossexual, bondosa, que acaba por derreter o coração do pai quando este a vê salvando uma vida.
Há muito tempo atrás, no extinto programa Você Decide, em que se votava entre dois finais alternativos, houve também o caso de duas amigas muito próximas, que tinham uma amizade muito forte, etc, etc. A mãe de uma delas era estúpida, feia, uma bruxa mesmo, ignorante e irredutível. A mãe da outra? Linda, meiga, voz doce, cabeça, faça o que manda o seu coração, o importante é que você seja feliz, dizia ela à sua filha. O resultado da votação foi... E você tem alguma dúvida?
Fala a verdade: o povo não decidiu nada, pois o que foi feito, nos casos acima, foi dar a resposta para o telespectador, que acabou somente por referendá-la.
Sabe o que parece? Por exemplo: a criança, que está na segunda série do primeiro grau, acaba de ler o texto sobre o descobrimento do Brasil. Logo em seguida, um questionário. Questão número 1 - Preencha a lacuna: quem descobriu o Brasil foi .................................. .
É claro que novela é tudo igual, onde o bem e o mal são bem definidos, onde raramente existe o dúbio, o cinza. O que acho que seria justo e realmente interativo com o povão seria justamente isso, um caso onde realmente houvesse, de propósito, a dúvida, o dilema de um personagem, a sinuca de bico, em que não se ficasse puxando pra lado nenhum. Aí sim eu queria ver.
No caso da forte amizade entre as meninas da novela, dúvida verdadeira seria se, embora de opiniões diferentes, as mães de cada uma delas fossem simpáticas e se relacionassem bem com suas respectivas filhas. A mãe que puxa para o não, ao invés de ser repressora, dissesse à filha algo do tipo: você tem que pensar bem antes de tomar uma decisão dessas... Pode ser apenas um modismo, um lance de oba-oba, sei lá... Você sabia que a maioria dos homossexuais que têm filhos não gostaria que seus viessem a se tornar homossexuais, por causa do sofrimento que eles têm?... É preciso pensar com calma, pois isso terá conseqüências..."
Outra coisa que me chama a atenção nesse caso é a insistência nesse tema de homossexualismo, principalmente o feminino. É um truque para aumentar a audiência, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos. Audiência baixa? Coloque mulheres se beijando.
Uma novela da Rede Globo que teve o mesmo tipo de romance acabou há pouco tempo. Por que voltar a esse assunto tão cedo?
Na minha opinião, essa insistência nesse assunto pode causar um efeito colateral muito ruim.A coisa pode evoluir da seguinte forma:
1- Atualmente, diz-se que amizade entre homem e mulher... É difícil de acreditar...
2- Amizade entre homens... Olha, sei lá, viu, esse mundo de hoje...
3- Amizade entre mulheres... Olha, complicado, viu... Sei não...
4- Amizade?... Que história é essa de amigo(a)?
Hoje, por exemplo, quando um homem diz que vai ao cinema, ou à praia com uma amiga, há sempre aquele ou aquela que diz:
Amiga? Ahã, sei, amiga... Conta outra!
O efeito colateral a que eu me refiro é o de as novelas acabarem por fazer as pessoas estenderem esse pensamento a qualquer forma de amizade, de as pessoas se tornarem extremamente maliciosas, principalmente em relação aos jovens. Ou então que a amizade se torne um termo contaminado semelhante ao que ocorre com a fidelidade do parceiro no casamento:
É... eu confio desconfiando... Sabe como é...
enviada por Vinicius
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