Cidadão Mediano

F A Ç A    B O A S    P E R G U N T A S

Tudo depende       Nada é sempre       Tudo é às vezes

 

31/05/2006 09:20

NEXO CAUSAL

Essa conversa ocorreu há mais ou menos vinte anos.
Conversava com dois colegas de colégio sobre um filme que a gente acabara de assistir:: O filme era Ana Terra, adaptação do livro de mesmo nome, de Érico Veríssimo. E o livro a gente já tinha lido.
No livro, Ana Terra tem um caso com o índio Antônio Conselheiro. Este, em um dado momento, diz à Ana que previu a própria morte, e que será morto pela própria família da moça.
E não dá outra: ela fica grávida, o pai descobre. E os irmãos de Ana levam o índio para um lugar, matam-no e o enterram.
Lembro-me bem do trecho em que os irmãos chegam com a pá, após "terminarem o serviço".
Voltando à conversa sobre o filme. Um dos colegas, ao comentar este trecho do filme, disse:
Pô, bicho, ele deveria ter feito alguma coisa, sei lá... Ah, meu, eu teria fugido, eu é que não ficaria lá, sei lá...
Um minuto de silêncio.
Foi quando que, ao mesmo tempo, eu e o outro colega (que veio a se tornar meu melhor amigo, e o é até hoje), falamos juntos, como dois irmãos siameses, a frase:
Mas se ele previu o que iria acontecer com ele, como é que poderia acontecer algo diferente?

***********

No meu trabalho, sou supervisor de uma das subdivisões de uma secretaria.
Há mais ou menos três anos, em uma seção vizinha à minha, entraram três funcionárias novas.
Uma delas me chamou a atenção. Não só a minha, mas a de todos: ela tinha uns hábitos "estranhos". Sinistra mesmo.
Explico. A primeira coisa que ela fez ao chegar foi borrifar uma água. Não sei que tipo de água era. Cara, era esquisito demais tudo aquilo. Depois ela colocou um copo com sal grosso e cabeças de alho sobre a CPU do computador. E todo dia, ao chegar, ela borrifava aquela água. Ninguém se atrevia a perguntar que porra era tudo aquilo. Nem a porra da água, muito menos a porra do copo.
Até que um dia ela pediu para sair do setor. Os colegas, é claro, queriam saber o porquê. A mulher disse que sua cartomante previra que ela iria trabalhar em "um lugar muito carregado, cheio de energias negativas". E que, por isso, teria de sair de lá.
No outro dia, limpou as gavetas e foi embora.
O pior mesmo é que o pessoal ficou sentido, pensando estarem em um ambiente "carregado", ou coisa que o valha.
Aproveitei-me do momento supersticioso para consolar o pessoal:
Olha, a vidente disse que ela iria trabalhar em um ambiente "carregado", não é mesmo? Então, se ela saiu daqui, o que ela foi fazer foi ir de encontro ao seu inescapável destino. Se ela vai trabalhar em um ambiente "carregado", com certeza tal lugar não há de ser aqui. Caso contrário ela aqui teria ficado!
Mas a mulher não levou o copo com sal grosso e cabeças de alho.
Toda vez que eu passava pelo setor, lá estava o copo.
Depois de um mês, vendo que ninguém tocava no copo, perguntei às colegas que trabalhavam com ela o porquê de o copo ainda estar lá. E elas diziam que o copo não era problema, pois "não estava fazendo mal a ninguém".
Posso jogar fora?, perguntei a elas. E elas foram pedir permissão para a mulher. E, de seu novo setor, a mulher autorizou que assim fosse feito. Mas ninguém se atreveu a mexer no famigerado copo. Joguei-o no lixo. Se eu não tivesse feito isso, tenho certeza, o copo estaria lá até hoje.

***********

Sempre que lembro desse assunto, vem-me à mente a seguinte história:

No meio da noite, Ermenegildo teve uma visão: sonhara estar em um avião, lendo os números da Mega-Sena. Era a única parte que ele conseguia se lembrar do sonho.
Pensou: vou apostar esses números, lógico. Dos números ele se lembrava bem. Anotou-os em um papel.
No outro dia, como estava sem tempo e atrasado para o trabalho, deixou os números para sua mulher ir à casa lotérica apostar. O dia seria corrido, e à noite teria de pegar um avião para o Rio de Janeiro, onde haveria uma importante reunião de negócios.
No vôo de volta para São Paulo, lá estava Ermenegildo no tal avião. Era “o” avião. E, à sua frente, estava “o” jornal. Neste momento, sentiu um aperto no coração, aquele sentimento de que algo tinha de estar errado. Foi quando se lembrou de ligar para sua mulher.
Escuta, você apostou os números na Mega-Sena, não foi?
Que números? Ah, esses aqui, em cima da mesa de centro?
Mas é claro!
Olha, até vi os números. Mas não sabia o que era. E você não me disse nada sobre apostar em Mega-Sena, ou seja lá o que for...Você bebeu, é?
Tá...

Bom, já que já tinha ido tudo pro espaço mesmo, só restava ler o jornal. Afinal, tinha sido só um sonho, consolava-se. Além do mais, azarado do jeito que era, somando-se ao fato da baixíssima probabilidade de alguém ganhar numa loteria daquelas... Normal. A vida continua.
Logo na primeira página do jornal, os números sorteados. Exatamente como havia sonhado. Os mesmos números.
Não sabia nem o que sentir, mas a gastrite nervosa voltara com força.
Foi nesse momento que se lembrou do resto do sonho: um único apostador, de Roraima, havia acertado as seis dezenas.

enviada por Vinicius






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