Cidadão Mediano

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Tudo depende       Nada é sempre       Tudo é às vezes

 

05/01/2006 16:16

PORRE HOMÉRICO

Minha última lembrança daquela noite foram alguns momentos após eu ter ido pegar um chopp para uma colega e um coquetel para mim. Chego a me lembrar até o momento em que bebo o meu coquetel. E só. A partir deste momento, não me lembro de mais nada, absolutamente nada. Foi como se eu tivesse sido teletransportado para minha cama. Com a maioria das pessoas acontece de a bebida ir subindo à cabeça aos poucos, vai ficando tonta, a fala começa a embolar, e ela pára de beber ao perceber que chegou o limite. Comigo não foi assim. Foi um apagão instantâneo. Só “acordei” lá pelas 8 da manhã da sexta-feira, para ir trabalhar. Quando vou para a sala para pegar meu relógio, meu celular e meus óculos, eis que minha mulher está sentada no sofá, olhando para baixo, triste, quando eu faço aquela célebre pergunta cretina:
Você está aí, é?
Ela fica calada o tempo todo. O silêncio é, para mim, a pior coisa em momentos como esse. Isso realmente mexe comigo.
”Você chegou sem eles”, ela responde ao me ver procurando os óculos. Foi nessa hora que eu tomei conhecimento do tamanho da cagada. No banheiro, minhas roupas jogadas no chão, junto com a jaqueta molhada, que tentei lavar debaixo do chuveiro na tentativa de limpar o vômito vermelho (de Sex On The Beach) impregnado.
Quando chego na estação de trem para trabalhar, ligo para uma colega que também esteve lá, para saber o que me aconteceu. Ela, assim como minha mulher, também não entra em muitos detalhes. Creio que para me poupar da vergonha que fiz ela e os outros passarem. É porque eu sei que não era da índole do pessoal, mas se tivessem fingido que não me conheciam, eu até compreenderia.
Bom, ao menos de uma coisa tenho certeza em todo esse episódio: não beijei e nem tentei beijar homem. E nem adianta vir com aquele papinho de ... de bêbado não tem dono. O meu é meu em qualquer momento. Poderia ter chegado todo esfolado, machucado, pá e tal, mas a única coisa que estourada seria a minha cara. Nem vem, véio, nem vem...
E a ressaca? Cara, na parte da manhã nem água estava parando no meu estômago, o que só veio melhorar à noite. E durante todo o dia minha fala ficou comprometida. Às vezes me esquecia o que estava para falar, ou ficava “ããã..., é....”, isso quando não embolava a fala de vez em quando. Isso sem falar na tremedeira nas mãos. Foi foda.
Só passei a sentir falta dos óculos na segunda-feira, dia 26/12. É incrível, apenas 0,25 graus de miopia, e eu com uma dor de cabeça que insiste em não passar. Não é das fortes, é claro, mas incomoda pra caralho. E a jaqueta teve de voltar para a máquina de lavar, uma vez que o cheiro de vômito ainda não tinha saído. Quando chego em casa, eu juro, foi só eu abrir a porta e começou a tocar uma música da dupla sertaneja Rick & Renner que diz "nóis trupica, mais não cai". Parecia armação da minha mulher, mas ela estava em outro cômodo da casa, não tinha como. Cara, foi o timing perfeito. E na terça, ao calçar os mesmos sapatos do dia do porre, percebi que o sapato direito estava com respingos vermelhos. Isso tudo para me fazer lembrar do ser rastejante em que me tornei naquele dia.
E as pessoas me perguntando sobre os óculos?
Sabe, sou um cara que faz piada da própria desgraça, mas neste momento o lance é sério. Faço piada de mim mesmo como estratégia de defesa, para que ningém venha querer me detonar. E também não tenho medo de contar a ninguém, se me perguntarem. Não fujo da raia. Encaro meus erros, minhas trapalhadas, de frente.
Mas fiquei mal. Muito mal.
Dizem que fotografar ou filmar são formas de fazer a pessoa não querer fazer isso de novo, ou de um alcóolatra (o que não é o meu caso, veja bem) perceber a necessidade de um tratamento. Minha mulher pensou em fazer isso. Mas desistiu ao tentar achar uma fita para gravar: a primeira fita que escolheu foi justamente a fita do dia mais feliz da minha vida, a fita em que meu filho, então com 6 anos de idade, me dá um presentinho de dia dos pais junto com o primeiro cartão feito por ele na escola, com as letrinhas ainda tremidas, um dia em que chorei feito criança.
“Será que eu aprendo?”, é o que me pergunto.

Bom, é isso.
Meus novos óculos ficam prontos na segunda-feira, dia 09/01. Como pode um pedaço de plástico ser tão caro?
Ainda não resolvi o problema do vírus. Vou ter de tirá-los “no braço” mesmo. Estou imprimindo um monte de tutoriais de remoção de vírus. O fim de semana promete.
Até mais.

enviada por Vinicius






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